Do lado de fora

 


            O sangue escorre no ralo. Apoio a testa no azulejo frio. As memórias invadem minha cabeça: O vulto, a faca, Ele. Os meus músculos e a garganta estão doloridos.  

            Pego o sabonete e esfrego no corpo. A bucha de palha arranha minha pele. Precisava tirar aquilo de mim ou vomitaria de novo.

            Pego o roupão felpudo quando fico satisfeita. O céu já escureceu.  

            Abro a geladeira com um empurrão e encaro as cervejas, havia comprado há dois dias para o meu aniversário. Olho o calendário na parede. É hoje.

            Abro a cerveja. Dou um gole.

            Me encosto na cadeira e observo a floresta. Há uma hora estava lá, ele me perseguia e eu como presa corria.

            Uma gota de sangue pinga no roupão. Levo os dedos no cabelo, sinto uma saliência. Ele havia me acertado com um pedaço de madeira,

            O mesmo que usei contra ele.

            Puxo a manga do roupão para cima deixando à mostra o relógio. A tela está quebrada. Aperto os lábios. Respiro fundo.

            Eu não devia estar bebendo.

            Pego outra lata.

            Meus músculos relaxam e minha mente fica leve.

            Ao longe o som de sirene soava.

            Meu tempo está acabando.

            Quanto tempo até eles encontrarem o corpo dele na floresta? Ergo a cerveja com as mãos tremulas. Eu precisei me defender. Foi necessário. Me lembro.

            ­— Senhorita, recebemos um chamado...

            Os olhos do homem para no meu ferimento.

            ­— Você está bem?

            ­Preciso esticar o pescoço para conseguir o encarar. Ele é alto.

            ­— Ele está na floresta. ­— Respondo.

            ­Demora um segundo para ele compreender.

            ­— Ele fez isso com você?

            Minha vista embaça. Assinto.

            ­— Tudo bem... Vamos cuidar de você.

            Uma policial me ajuda a levantar da cadeira e me leva para a viatura. Depois disso, tudo foi um borrão.

            Quem era ele?

            Meu marido.

            ­Por que ele fez isso?

            Ele costuma ter... Ataques te raiva.

            Ele fazia isso com regularidade?

            Silencio. Tiro o nó da garganta.  

            ­Não. Só no aniversário de morte dos seus pais.

            Conseguia ver a confusão nos seus olhos, mas ela não falou nada.

            Os pais dele fizeram coisas horríveis e isso o mudou, o transformando em um monstro.

            Sigo pelo corredor. Qualquer vida que estivesse me esperando do lado de fora é melhor do que eu deixei para trás.

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