O que aconteceu?

         


           Enrolo meu punho em um pano rasgado e despedaço o vidro. O lugar está mais escuro que minha alma. Tento conter a ferida recém aberta com o pano. 

O dono não vai ficar nenhum pouco feliz quando olhar o piso de mármore com sangue.  

É só um pouco de comida. Penso. Apenas pegue e cai fora. 

Passo por um corredor e tento as portas até encontrar a cozinha. A geladeira está cheia. Fazia muito tempo que não via tanto comida em um só lugar. 

Eu não posso fazer isso... O que estou fazendo?

— Boa escolha. 

O pacote que estava na minha mão cai. Olho para escuridão procurando a quem pertence a voz. Lentamente tiro a faca da calça. 

— Você não precisa fazer isso. Venha aqui.  — A voz fala de novo. 

Dou um passo para trás, atordoada. 

— Venha! 

Antes que eu pudesse pensar qualquer coisa meus pés começaram a andar em sua direção. 

— Quem é você? — Pergunto. 

Silencio.

— O que estava fazendo aqui?

— Eu... Sinto muito. — Respondo. 

As lágrimas caiam silenciosamente. 

— Pegue e coma tudo o que quiser. Tudo que peço é que não roube novamente. 

Encaro a escuridão, incrédula. Depois de alguns minutos, como até ficar satisfeita. Sempre em alerta. 

— Não roube novamente. — Ele repete. 

Silencio.

— Não vou. 

Desço pela janela. Dessa vez nenhum caco corta minha pele. Paro próximo da luz do poste e verifico o ferimento. Não queria pegar nenhuma infecção. 

Tiro o pano. Pisco. Esfrego os olhos e balanço a cabeça. 

— Não é possível...

Não tinha mais nenhum machucado lá, um único corte sequer. Apenas sangue. 

Olho para casa. 

Não roube mais. Uma voz sussurra na minha cabeça. 

O que aconteceu?


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