Tiro da caixa os sacos de balas e reponho o estoque.
Continuo colocando as coisas em seus devidos lugares: Bolachas, barras de
chocolates.
Os
primeiros raios do anoitecer cruzam o céu, em um tom dourado e rosa. Cada
molécula do meu corpo estava entediada. O último cliente tinha saído há duas
horas, ele é um freguês, me pergunto como alguém fuma tanto.
Quando estava cogitando verificar
a reposição do estoque o sino toca.
Saio
rapidamente de trás do balcão.
— Precisa
de alguma coisa?
O garoto a
minha frente me encara com um sorrisinho. Ele está com as mãos enfiada nos
bolsos da calça surrada.
— Um bolo.
— Ele responde.
Tiro da
vitrine o que fiquei com o estomago gritando alto só de olhar.
— Fatia ou
inteiro?
— Fatia...
— Ele olha ao redor. — Sente-se comigo.
Franzo o
cenho.
— Estou
trabalhando, senhor.
— Você
parece mesmo muito ocupada. — Ele zomba.
Coloco o
bolo no prato e o encaro.
—
Pagamento. — Falo, não conseguindo conter a raiva no meu tom.
— Sinto
muito... Eu não queria te magoar. É... meu aniversário.
O analiso,
tentando detectar alguma mentira, mas não havia nada. Apenas culpa e tristeza. Ele
estava sozinho.
— Tudo bem.
— Falo, pegando outro prato.
Coloco a
placa de “Fechado” antes de me sentar com ele.
— Qual é o
seu nome? — Ele pergunta.
— Luana.
— Jack,
prazer.
Ele estende
a mão.
— Está
fazendo quantos anos, Jack? — Falo, apertando sua mão.
— Vinte.
Ele fica em
silencio. Do lado de fora, um grupo passa deixando um rastro de fumaça e risos.
As luzes da rua estão acesas.
— Espere um
momento.
Pego uma
vela. Ascendo ela, enfio no bolo e desligo as luzes.
— Faça um
pedido.
O seu rosto
está iluminado pela luz dourada. Jack, é um cara bonito, me pergunto como
alguém como ele está sozinho. Ele hesita antes de soprar.
— O que
pediu? — Pergunto, sem esperança que ele me responda.
Nos
encaramos por um longo tempo. Ele tinha uma pequena cicatriz rosada perto dos
lábios.
— Mais um
dia com você. — Ele sussurra.
No final de
semana, e nos que se seguiram depois dele, nos encontramos. Me lembrava
especialmente de um.
Ele tinha
aparecido na loja no final da tarde, como de costume. Jack insistiu que
pegássemos um bolo inteiro, o mesmo do dia que nos conhecemos.
Acabamos
com o coração inchado de alegria e o rosto melado de chocolate.
— Lu, é
assim que quero me lembrar de você... Com os olhos sorrindo.
Ele cola
nossos rostos. O beijo foi demorado e profundo.
Passo o dedo na cicatriz, ofegante.
Seus braços rodeavam minha cintura, a cabeça apoiada no seu peito. Uma sensação
agradável preencheu meu coração.
— Eu te
amo. — As palavras saem antes que eu pudesse me conter.
Ele ergue
meu rosto com o dedo e me encara profundamente. Minhas bochechas estavam
coradas.
— Eu também
te amo.
Fiquei
grande parte da noite escutando as batidas do coração enquanto observava a vela
derreter.
— Nos vemos
amanhã, não é?
— Claro. —
Ele responde, olhando para o chão.
O meu
coração dizia que havia algo errado, no entanto, deixei ele escorregar pelos
meus dedos.
No outro dia, os policiais bateram na porta.
Não me lembro do que aconteceu depois disso, tudo foi um borrão, mas a
acontecimento no enterro estava nítido na minha mente.
Eles vestiam
roupas simples e cada um carregava uma garrafa de bebida. Não pareciam triste,
era quase como se estivessem se obrigado a vir.
— Sinto
muito... — Falo com os soluços preso na minha garganta.
— Não
sinta. Jack, era apenas um garoto sentimental demais para esse mundo.
Naquele
momento soube o porquê das cicatrizes que ele carregava no corpo. Foram eles...
O motivo de
Jack ter se suicidado.

Comentários
Postar um comentário