Paris


 

            — Quem é ela? — Pergunto.

            — A garota nova.

            — Ela não parece bem.

            — Quem se importa? — Lívia revira os olhos e volta a rabiscar o caderno.

            Encaro a garota. Ele tinha apoiado a cabeça na mesa e parecia estar dormindo.

            No outro dia e nas semanas seguintes ela agia da mesma forma. Não conversou com ninguém.

            Antes de ir para escola pego um pão extra e embrulho. 

            — Oi.

            Por um momento penso que ela não me escutou, então, toco seu braço. Ela se encolhe.

            — Sinto muito... Trouxe comida.

         Seus olhos parecem duas orbitas vazias.

            — Você pode pegar uma. — Entrego um pão e suco.

            Ela intercala seus olhos de mim para a comida, hesita, e finalmente pega. Noto que suas mãos estão tremulas e com algumas marcas.

            Eu tinha dez anos nessa época, e mesmo com a mente infantil conseguia imaginar o que tinha acontecido. Depois disso passei a compartilhar meu lanche, e sempre ficávamos em silencio, ambas mergulhadas em seu próprio mundo.

            Em uma quinta feita ela se foi. 

            — Deve estar doente. — Lívia disse.

            Espero o outro dia, a próxima semana e o próximo mês: Nada.

            Passo os dedos no meu esboço, tinha desenhado ela logo depois de seu desaparecimento para nunca me esquecer do seu rosto. Seus olhos ainda me deixam tristes.

            Caminho por entre as barracas na calçada de Paris, havia conseguido expor meu primeiro quadro aqui.

            — Eu sabia que um dia conseguiria. — Minha mãe disse emocionada antes que eu partisse.

            Inspiro os cheiros ao mesmo tempo completamente novo e familiar: Café, o perfume das flores. Abro os olhos.

            Uma mulher com a pele levemente caramelizada e um sorriso enorme está há alguns passos de mim. Tivemos apenas uma troca de olhares, que durou um segundo, mas foi o suficiente para me marcar por anos.

            Foi difícil a reconhecer sem toda aquela tristeza, mas lá estava ela: Andando pelas ruas de Paris. Sorrio.

            — Se houvesse um lugar para onde ir, qual seria?

            — Paris. — Ela responde sem hesitar.

            — Talvez a gente possa ir juntas um dia.

            — Talvez...

            Meus olhos se enchem de lágrimas.

            Você conseguiu. Penso.



           

 

 

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