Memórias

 

       Se eu fechar os olhos ainda consigo pensar naquela noite com a mesma precisão de um cirurgião com um bisturi.

            Os olhos verdes reluzindo contra o sol. As suas mãos mornas segurando a minha... 

            — Mais alguma coisa senhorita?

            Pisco.

            — Não, obrigada.

            O garçom dá um aceno e fecha o bloco. É uma tarde de verão, os passarinhos estão cantando e o cheiro das plantas entram pelas minhas narinas.

            Dou um gole no café, observo o céu por um longo tempo.

            Pego um bolo de fotos. As bordas estão amassadas e um tom amarelado começava a invadir o material.

            A primeira é há 10 anos:

            Ele tinha acabado de comprar um carro usado, passamos dias andando com toda a velocidade pelas ruas de terra.  O vento contra o rosto e um sorriso.

            Pego o segundo. Sete anos:

Foi uma tarde na sorveteria. Sorrio, não sabia como explicar para minha mãe a roupa manchada de chocolate.

            — Não importa aonde. Chocolate é sempre bom. — Ele diz.

            Cinco anos:

            Formatura. Aquele tempo foi horrível, não conseguimos entrar na mesma faculdade. Mas, quase todo dia fazíamos vídeo chamada.

            O ar fica preso na minha garganta.

            Três anos:

            — Promete que vamos nos ver de novo? — Pergunto, minutos antes da sua partida.

            Seus olhos verdes era uma mistura de tristeza e esperança.

            — Eu prometo...

            Tiro o dinheiro e coloco na mesa.

            Uma mulher empurra um carrinho de bebê. Ela usa um vestido de verão que chacoalha contra o vento quente, ela tem a mesma tonalidade dos meus olhos:

            — É como ver o céu sem precisar olhar para ele. — Ele costumava dizer.

            O homem ao seu lado pega o bebê e o coloca em seu ombro.

Uma lágrima solitária cai.

            — Eu sempre vou te amar. — Ele sussurra.

            O pior de tudo é que eu acreditei com todo o coração que aquilo fosse verdade.

            Mas não...

            O sorriso do homem morre.

            Vejo uma pontada de culpa em seus olhos verdes.

            Ele nunca me amou, pelo menos não da mesma forma que eu amei. 



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