— Costumava te achar doce. — Ele diz.
Eu também
costumava me achar doce. O que foi que mudou? Como um momento pode acabar com
tudo?
O peso nos meus olhos é uma
lembrança constante do que fiz. Das noites sem dormir.
O único som
que escuto é o da água caindo na pia.
Tum...
Tum...
Tum...
Tum...
Eu deixei
de ser doce quando disse sim para aquele cara ou por ter machucado tanto a
pessoa que amo?
Tum...
Tum...
A ponta dos
seus dedos está vermelha contra a alça da mala.
O que eu
tenho que fazer para ele parar? Quero que ele fique e alivie a culpa que sinto.
Sinto uma
tontura e ânsia.
— Quer mais um drink? — O homem sem
rosto pergunta.
É a única coisa que me lembro
daquela noite, depois tudo é uma confusão: A gente indo para o quarto, os
sapatos no chão, o êxtase e o vazio.
Afasto o pensamento.
Preciso disser algo. Explicar que
estava bêbada e... sozinha.
Meu coração estremece no peito
quando o encaro. Ele está usando uma camisa xadrez. As mangas puxadas até a
altura dos ombros.
— Você parece um cowboy sexy com essa roupa. —
Costumava dizer.
Os olhos quebrados me olhavam de
volta. Não havia mais carinho ali. A pressão no meu peito aumenta.
— Não esquece de deixar as
chaves. — Falo, com a voz tremula.
Ele dá um
passo para trás, como se tivesse sido atingido. —
Não vou.
Silencio.
Tum...
Tum...
Escuto o
som da maçaneta. Ergo a cabeça. Abro a boca, fecho. Fique. Penso, atordoada.
— Eu costumava te achar doce. —
Ele repete.
O som do
click da porta se fechando. Pisco.
Tum...
Tum...
O som se
mistura com as batidas do meu coração.
As rodas da
mala contra o chão e o elevador. Passo a mãos no rosto. Estou chorando. Qual
foi a última vez que fiz isso?
— Não vá. —
Sussurro para o apartamento vazio.

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