A corrida

 


            O apito soa e a corrida começa. As folhas secas flutuam com o tremor dos nossos pés.

Olho para o lado.

Dois trapaceiros derrubaram os corredores mais próximos. Aperto as mãos em um punho.

Arranco um galho e tento colocar os trapaceiros na mira, mas eles são rápidos.

Olho para trás.

Alex dá um sorriso de cúmplice.

— Eu dou cobertura. — Ela diz na minha mente.

Desacelero e deixo ela tomar a liderança. Pulo no seu ombro e pouso no primeiro trapaceiro. Ele cai.  

Próximo.

O segundo é o mais forte e rápido. Ele ainda está encarando o local onde o amigo caiu, depois, ele me encara.

— Nada mal garota da floresta.

Pressiono os lábios em uma linha fina.

— Meu nome é Brenda.

Ele sorri e aumenta a velocidade.

            — Alex. Já sabe o que fazer. — Digo mentalmente.

            Estamos há 60 metros da bandeira.

            — Como estão seus poderes? — Pergunto.

            Ele passa a costa da mão na testa, tirando as mechas de cabelo grudado.

            — Consegui levitar um caminhão. — Se gaba.

            — Qual? De brinquedo?

            — Sei o que está fazendo. Não vai funcionar. — Desvio de um tronco. — Desista.

            Alex, que tinha se aproximado sorrateiramente dele, é empurrada. Que droga.

            — Agora somos só eu e você. — Ele diz.

            — Não sabia que batia em mulheres.

            Infelizmente, ele não pareceu ter recebido bem a brincadeira.

            — Já chega. — Ele grita.

            Sinto uma força tirar meus pés do chão. Ele estava mesmo falando a verdade sobre o caminhão.  

            Respiro fundo, drenando o máximo possível do seu poder. A vista escurece por um segundo. Pisco. Quase perco a velocidade e tropeço.  

            A bandeira está a 40 metros.

            As pernas estão tremulas com o poder que percorre meu corpo, sinto como se fosse um balão prestes a explodir.   

            Quando tento arrancar apenas um galho acabo tirando toda a arvore, ela cai logo em seguida e bloqueia o caminho de um corredor. Suspiro.

            Ele provoca um redemoinho de terra ao redor. Tusso. Quase dou de cara com uma arvore. Aperto os olhos...

            20 metros.  

            Somos os únicos em pé.

            Pense, pense, pense....

            — O que foi? Acabou os truques? — Ele pergunta.

            Uma luz se ascende na minha cabeça. Era um dom que ainda não havia desenvolvido. Encaro a bandeira.

            10 metros.

            Eu não tinha escolha. É minha única chance.

            O céu está cobertor pelas folhas das arvores altas, mas a luz que passa pelas frestas deve ser o suficiente. Tem que ser.

            — Veja e aprenda. — Falo.

            A adrenalina inunda minhas veias.

            5 metros.

            Me concentro no som dos passarinhos, a terra... e a luz. Sinto como se ela tivesse em volto do meu corpo, como um cobertor.

            — Mas o que...

            Imagino a luz o atingindo. Apenas metade dela tinha saído, mas foi o suficiente para o derrubar. Sorrio.

            Aproveito cada passo que dou em direção a bandeira. Uma bola de felicidade nasce no meu peito. Arranco a bandeira fincada no chão e ergo diante de toda a floresta.

            — O grupo azul é o vencedor! — A voz no microfone ecoa dispersando os pássaros de uma arvores próxima.  

            Ele aparece com um corte nos lábios e arranhões pelo rosto, e... sorrindo?

            Apertamos as mãos e observamos os outros chegarem.

            — Tenho que admitir, estou impressionado.

            O encaro.

            — Não achei que ia machucar tanto. — Falo, arrependida.

            — Se fosse você não se desculparia tão cedo.

            Antes que tivesse a chance de processar o que ele disse meu corpo é erguido e lançado no precipício. Estávamos na beira de um monte e a queda de metros dava para uma água gélida e agitada. Todo ar é sugado dos meus pulmões e o pânico se instala...

            Eu não sabia nadar.


Comentários