Encho a taça de
champanhe.
— Achei que não
gostasse de beber.
— E não gosto.
Hoje é um dia especial.
Dou um gole. O
gosto é horrível, mas não me impede de continuar experimentando.
Dante pega a
taça e joga o conteúdo na pia. Abro minha boca para protestar, mas fecho. Ele
está com raiva.
As vezes ele
tem a mania de se comportar como meu pai, e acho que dou motivos para fazer
isso. De qualquer forma, é uma merda ter que lidar com isso na meia idade.
— Nem pensar
Monica. Achei que tínhamos conversado sobre isso!
Olho para minhas
mãos e suspiro.
— Sinto muito.
Não imaginei que agiria como se tivesse quebrado seus discos de vinil.
Ele me dá um
último olhar antes de tirar os Browne do forno.
As mangas da
camisa estão puxadas para cima. Sempre achei que ele fica bem assim, e depois
de ter admitido em uma festa no ensino-médio, nunca mais parou de fazer isso.
— Lívia não
quer ir para escola. — Ele diz.
Encaro o pote,
ao lado do retrato tirado há um ano.
— Separa alguns
Browne.
Ele vai até o
armário e tira um prato. Me aproximo e o abraço por trás. Ele se vira.
— Não precisamos fazer isso. Você não precisa.
Desato o nó da garganta e falo:
— Ela gostaria
que fizéssemos. É o mínimo.
Seus dedos
traçam minha mandíbula, solto um pequeno suspiro.
— Vamos fazer
isso juntos.
O sussurro abafado
no ouvido e sua respiração leva uma onda de arrepios por todo o meu corpo.
Balanço a cabeça, desnorteada.
Dou três
batidinhas na porta.
— Lívia. Trouxe
os doces do papai.
Escuto os
passos, e o barulho da tranca.
Ás vezes, eu
olho para ela e não a reconheço como minha filha. A que tirei troquei as
fraldas, levei para escola e doei uma parte de mim.
Seu cabelo agora
é loiro, e não posso mais fazer tranças. Sem dizer uma palavra ela pega os Browne
e fecha a porta.
Porcaria de adolescência. Penso.
Respiro fundo e
entro.
— As cinzas
serão jogadas as 14:00. Pode fazer as honras?
Sento na cama e
pego um Browne.
— Não quero
tocar em gente morta. É nojento.
— Lívia! —
Repreendo.
— A Jasmim
chega uma hora antes. Não vou.
— Por favor...
Preciso de você. — Minha voz falha.
Seus olhos se
suavizam.
— Tudo bem.
Ficamos comendo
em silencio, depois de alguns minutos escutando a música saltar dos seus fones
decido que já tive o suficiente por hoje. Dou uma olhada rápida nos postes
grudados nas paredes. Paro no batente da porta.
— Está liberada
da escola hoje, mocinha. Mas amanhã não tem conversa.
Minha irmã foi
uma grande amiga, talvez a única. Ela ficou ao meu lado quando minha filha
nasceu sem um pulmão e até ofereceu para doar.
Me pergunto se
estaria viva se não fosse por ela. Não. Com certeza estaria morta, há sete
palmos do chão. Como ela.
Entro no quarto
e vasculho a caixa de joias.
Meu coração
aperta quando encontro o colar. Ele brilha na palma da mão.
Fugimos da
escola e fomos para o centro da cidade. Paramos em uma dos amontoadas de
barracas na calçada.
— Achei! Eles
são perfeitos. — Ela diz.
Os pingentes
com nossas iniciais pararam em nossos pescoços, e nunca mais tiramos. Limpo as
lágrimas com a borda da camisa.
O sol sabe na
água esverdeada e reflete em nossos olhos.
Lívia morde os
lábios, segurando o choro. Como sabia que faria.
Estendo o jarro
e nós o seguramos. Ficamos observando as cinzas estendidas no ar para depois
serem levadas pela correnteza.
Meus dedos
traçam na barriga. A cicatriz está em um tom avermelhado.
Foi uma grande
piada do destino ela morrer. E meses depois eu precisar de um rim.
E esse foi seu
último ano ato de bondade, estregar o que restou da sua vida para possibilidade
de eu ter uma.
Dante pega minha mão, e me dá um olhar triste. Ficamos até o sol se pôr, o silencio interrompido de tempos e tempos pelo soluço da minha filha, chorando diante de nossa salvadora.

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