Ligo o fogo
e preparo o café. O dia da cidadezinha no interior de Rondônia amanheceu
ensolarada, o aroma das flores entra pela janela.
Coloco o
liquido quente na xícara, olho para o céu e suspiro. Já se passaram um mês. As
sirenes ressoam no meu ouvido como se fosse hoje. O fim do meu tormento para
começar outro se iniciou em uma tarde de terça feira típica.
Estava
prendendo as roupas no varal enquanto escutava o rádio. Me lembro de sentir uma
pontada de medo quando o vi cambaleando com uma garrafa de vodca. Depois disso,
veio os gritos e o calor do concreto, o sangue escorrendo.
— Ele a
matou... Eu sabia que iria terminar assim um dia... Ela nunca o deixou... agora
paga isso com a própria vida...
O mais
engraçado é que me lembro de por cima de todas aquelas vozes escutar a voz do
rádio relatando mais uma morte por feminicídio a duas quadras.
Ao acordar
no hospital tudo que fazia era encarar as flores. Dormente. A mesma
dormência que sinto agora.
Dou um gole
no café. O tempo é imprevisível, assim como eu. Ás vezes eu dormia na
tempestade e acordava com um céu limpo.
Escuto
passos no corredor e um tempo depois o jornal é jogado debaixo da porta. Minha
respiração volta ao normal quando o som de passos distância até desaparecer.
Abro o
jornal.
Mulher que matou o marido por legitima
defesa é finalmente (Depois de muitos protestos da população) livrada de qualquer
culpa pelo assassinato. Sendo assim, inocentada.
Passo o dedo na cabeça onde tem uma cicatriz longa e grossa: Ele me acertou com a garrafa; Sabia que ia morre, acho que foi por isso que reuni coragem e catei um pedaço de vidro, enfiei na garganta dele.
Me lembro
do sangue espirrando, como se fosse uma torneira. Depois, sinto uma dor aguda
na cabeça e bato contra o chão. Todos sabiam o que tinham acontecido, então,
ninguém ligou para poça de sangue que se formava em volta do seu corpo.
Uma lágrima
cai no jornal, e depois duas, três... Quando
o advogado ligou outro dia não acreditei que finalmente tinha acabado.
Dou outro longo gole de café, saboreando lentamente os primeiros segundos da minha liberdade.

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