Ainda penso em você

            O céu está em uma tonalidade rosada misturada com dourado. A brisa chacoalha meu cabelo e traz o cheiro salgado do mar.

            A praia está vazia, exceto por um homem ao longe. Me concentro na areia sob meus pés. Já faz cinco anos. Sinto uma pontada no coração.

            Não tenho mais a pele bronzeada e meu sorriso não é mais fácil, como antes. Estou quebrada.

            Analiso o cardápio. Passo o polegar lentamente em cada item até chegar no último. Ele inala o ar com força. Mordo os lábios achando graça.

 O restaurante está cheio, as vozes se sobressaem sob a música lenta. Um garoto está esperneando, pois a mãe recusou dar a ele mais um pedaço do bolo.

            — Camarão. — Digo, por fim.

            Ele aperta os lábios.

            — E também um...

            — Suco. — Me interrompe, sem se preocupar em disfarçar a raiva.

            — Isso.

            Ele tira a tampa da caneta e escreve.

        — Faz uma semana que vem aqui e faz os mesmos pedidos... Posso saber por que? — Diz, hesitante.

            — Gosto do lugar. Daqui consigo ver o mar.

            Ele arqueia a sobrancelha, deixando claro que não acreditava nisso.

            — Qual é o seu nome?

            Fico em silencio por um segundo.

            — Por que?

            Ele aperta os olhos esverdeados.

            — Preciso identificar o pedido.

            Agora é minha vez de erguer as sobrancelhas.

            — E não pode fazer isso com o número da mesa?

            Olho para a placa.

            — Prefiro saber o nome.

         Pego um cubo de gelo e jogo na boca. Ele passa os dedos pelos cachos que caem desajeitadamente por toda a parte. Depois de um longo minuto, respondo:

            — Amélia.

            Seus olhos suavizam.

         Na primeira vez que botei os pés aqui me diverti muito com as provocações. Não consegui resistir e passei a vir toda semana. É a única diversão que tenho.   

            — Aqui está seu prato, Amélia. — Diz meu nome asperamente.

            Ele se aproxima para me servir.  Inspiro silenciosamente, tem um aroma cítrico. Ele vira a cabeça, estamos tão perto que posso sentir sua respiração.

            A criança com o rosto que parecia um balão (Prestes a explodir) espatifa o prato no chão, o bolo rola pelo carpete.

            — Parece que tem um chão para limpar, garoto do bloco de notas.

            Ele pisca e balança a cabeça.

            — É Josh.

            Riu, enfiando o camarão na boca e observo ele ir.

            Percebo que estou apertando as sandálias com muita força. Compro um picolé de frutas e paro perto de uma pedra enorme. Passo os dedos na gravura: A e J.

            Passamos o fim de tarde observando o pôr do sol. Ele pega uma pedra e traça linhas aleatórias na areia.

            — Está tarde. — Digo.

            Ele larga a pedra e me encara. Seu rosto está iluminado com a luz do sol. Ele conecta nossas mãos e entrelaça.

            — Tenho uma surpresa.

            Paramos em frente a uma pedra enorme, com nossas iniciais gravadas. Me viro para ele. E o puxo para um beijo, me arrependo de muitas coisas, mas ele não seria uma delas.

            Ele passa o dedão na minha clavícula e sobe para a bochecha.

            — Está vendo como o mar se encontra com o céu no infinito. — Ele olha para o horizonte. — É a gente, nós sempre vamos nos encontrar.

            O homem fecha a cadeira dobrável e a põe debaixo dos braços. A pele dele é bronzeada. Algo cai de seu bolso quando se agacha para pegar o celular.

            — Ei!

            Ele se vira na minha direção. Congelo.

            — Camarão?

            — Josh...

            Seus olhos verdes parecem mais duros e ele agora tinha pés de galinhas. Mas ainda assim era ele. Josh.

Ficamos um longo tempo nos encarando. 

            — É você mesmo? — Ele pergunta.

            Meus olhos se enchem de lágrimas.

            — Por quê?

            — Sinto muito... — Falo, com a voz tremula. — Gostaria que as coisas tivessem sido diferente.

            — Quando o verão acabou... você sumiu.

            Engulo o nó da garganta.

            — Tinha ganhado uma bolsa para estudar no exterior. Depois de anos me esforçando.

            Ficamos em silencio. As primeiras estrelas começaram a aparecer no céu, ao redor da lua. Uma fogueira é acessa próximos de nós e o cheiro de fumaça entra nas narinas.

            — Costumava te achar doce.

            O nó aumenta.

            — Nunca quis te machucar. Aquela noite, estava disposta a desistir da viagem e... ficar com você.

            Seus olhos cintilam de dor.

            — Então, resolveu ficar com outro. Na minha frente.

            — Estava bêbada. — Até para os meus ouvidos a desculpa pareceu idiota. No entanto, era verdade.

            Ás vezes fazemos coisa que são um mistério para nós mesmos.

            — Eu te amava. E você destruiu isso. — Ele encara minha mão. — E continua destruindo.

            O anel parecia pesar uma tonelada. Ele representava minha tentativa fracassada de concertar o que eu fiz, com uma nova pessoa.

            — Eu ainda penso em você.

            Ele dá um passo para trás, como eu tivesse o atingido. Nunca fui uma pessoa que me orgulhasse, mas dessa vez podia fazer a coisa certa.

            O primeiro passo foi o mais fácil, mas o outros que se seguiram fizeram minhas pernas virar chumbo. Caminho para o lado oposto do horizonte, onde não nos encontramos no infinito. 

               

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