A fuga







             Os galhos rasgam minha pele. Conseguir ouvir seus passos por cima das batidas frenéticas do meu coração.

            Ele vai me pegar. Penso, horrorizada.

Tento correr mais rápido, mas tinha chegado ao meu limite.

            Sinto uma picada no calcanhar. É uma aranha enorme. Rolo pela grama húmida. Me Viro. O sol aparece entre as folhas das arvores altas, mas sua cabeça enorme tampa a visão.

            — Peguei você. — Ele diz, em um tom doentio.

            A aranha congelou todos os sentidos. Estava gritando dentro da minha cabeça.

 É possível ver as veias roxas quase explodindo na sua cabeça. Fecho os olhos, aquele rosto foi a causa de vários pesadelos.

       Sinto uma pontada no ombro e sou levada pela escuridão.

         O cheiro enjoativo de desinfetante entra pelas minhas narinas. Vomito.  

            — Parece que não foi dessa vez.

      Olho para o garoto novo. Algumas mechas do seu cabelo escuro estão grudadas na testa. Ele faz uma careta quando tenta troca de posição.

            Mãos e pés estão presos por correntes. Como eu. O rosto cheio de machucados abertos, acho que ele desobedeceu alguma ordem, pois ele costuma pegar leve no começo.

            Não pergunto se ele também foi pego enquanto lambia um sorvete de menta e contava as moedas do troco.

            Me lembro da mulher gorducha com um sorriso gentil. Ela se parecia com as mulheres da minha rua. Então, não faria mal caminhar com ela perto da floresta, onde ninguém ia.

            — Onde está o algodão doce?

      Observo quando o arrependimento cruza seus olhos, antes de tudo ficar escuro.

           Pelo o pote e tomo: A água está salobra e tem um gosto horrível.

            — Os cortes estão sangrando muito. — O garoto continua.

Eu nunca vou sair daqui.

 Meus olhos se umedecem e sou atingida por uma onda de desespero. Talvez eu devesse acabar com tudo isso... Seria mais fácil. Sem mais dor ou sofrimento.

            — Isso pode doer um pouco.

            Pisco. Ele tirou a jaqueta de couro que estava usando, umedeceu e passou nos meus ferimentos.

            — Acabou.

            Encaro os ferimentos limpos e sinto uma onda de afeição pelo garoto. Pego a jaqueta manchada de sangue e faço o mesmo com seus cortes.

           — Não precisa.

           — Eu... quero. — Minha voz sai rouca e tremula pela falta de uso.

        O maior corte está na bochecha, o cabeça de balão prefere atacar o rosto.

            — Meninas bonitas são meninas más. — Ele disse certa vez.

         Examino o rosto do garoto a minha frente, e não posso deixar de discordar dele: Pessoas bonitas nem sempre são más.

 

            Os passos ecoam no corredor. Fico em alerta.

            — Josh, eu... não sei se vou aguentar mais uma vez. — Ele pressiona os lábios em uma linha fina. — Odeio quando faz isso. Fica em silencio.

          Ele respira fundo. Quando tira a mecha ensanguentada do meu rosto, noto que suas mãos estão tremulas.

            — Cante algo para mim. — Peço.

            Ele parece hesitar por um momento. Sua voz ecoa no porão, me fazendo relaxar. Os passos param.

            — Vai ficar tudo bem. — Ele diz, com a voz cheia de emoção.

            Ele passa o polegar no pulso e sobe por todo o meu braço. A porta é aberta. 

            O porão é banhado pela luz. Cubro os olhos. O cabeça de balão está com a aranha no ombro e um sorriso macabro no rosto.  

            — Cinco, venha.

    Ele aponta o dedo para mim. Meu estomago embrulha. Ele solta a minha mão lentamente, como se fosse algo doloroso de fazer. Aperto meu urso contra o peito.

            — Eu vou destruir você.

            A respiração fica presa na garganta.

             Então, tudo acontece em um segundo. A fome e à exaustão mal me permitir capturar o que havia acontecido. Pisco.

         Jack pegou o prego que guardou durante semanas, esperando o momento certo, e acertou nele. O cabeça de balão solta um grito.  

            Jack me leva com ele, mas a aranha tinha pulado no pescoço e me picado.

            — Fuja. — Digo, antes de cair.

            Ele me encara horrorizado. O cabeça de balão não estava mais gritando, o que significava que tinha tirado o prego do pescoço. Imploro com os olhos:

            Por favor, por favor... Vá embora.

            — Eu vou voltar. — Ele diz.

            Antes de apagar vejo o corredor ser tomado por uma luz vermelha.

       Acordo na sala de tortura. Ele me interroga, mas nota que não vai tirar nada de mim.

       — É uma pena. Você era minha preferida. — Ele injeta um liquido vermelho no tubo que vai diretamente para o sangue.

            Fecho os olhos. Não quero que tinha última lembrança seja das caveiras e os órgãos nas prateleiras.         

            Penso na memória quase esquecida da minha mãe.

            Seu rosto sorridente.

            Josh, com sua gentileza.

     Estou voltando para vocês. Penso, e mergulho na escuridão.

            Ele estava mesmo certo quando disse para trocar as os nomes das substancias com cores igual, mas com efeitos totalmente diferentes.

             Agora, é a minha vez de caminhar em direção a liberdade. 

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