Aperto
a garrafa de cerveja contra o corpo. A lembrança daquela noite fria me deixa
enjoada. Mesmo depois de anos.
Seus olhos são verdes e possui duas pintinhas castanhas.
Sempre gostei dos seus olhos, e foram eles, no primeiro momento, que me
deixaram apaixonada por Collin.
Ele
entrelaça nossas mãos.
—
Precisamos ir, meus pais... — Diz, com a voz rouca.
A
lareira crepita levemente. Observo o anel de ouro em nossos dedos, hesitante eu
o tiro deixando uma marca. Faço a mesma coisa com o anel dele.
—
Vou ficar com eles dessa vez. — Ele diz.
Com
cuidado coloca no fundo da gaveta. Ficamos em silencio, observando o fogo na
lareira. O clima de tristeza pairou no seu quarto.
—
Ei. Não fique assim. Na próxima vez consigo mais tempo. — Ele diz, vendo minha
expressão.
Você disse a mesma coisa semana
passada. Penso.
Tateio
a mesinha até encontrar uma folha e papel. Cambaleio até cortina, sob a luz do
luar escrevo:
O amarelo da cerveja me lembra o mijo; o jeito
sujo que a gente terminou. E o gosto amargo; me lembra o amor que sinto por
você.
Uma lágrima
solitária cai. É um bom texto, eu acho, talvez eu publique.
Acordo sentindo um traço de animação. Os passarinhos
cantam fabulosamente.
Deixo a água tirar o cheiro de vomito do cabelo. Coloco minha melhor roupa: Uma calça macia, e uma camisa clara.
Subo o pequeno morro e me acomodo atrás do arbusto. Tenho uma visão privilegiada do parque.
Retiro o binóculo da mochila.
Uma garota de cabelo loiro tira meleca do nariz sem se preocupar em esconder. No escorregador, uma garota de nariz empinado chora pelo mesmo motivo idiota: atenção. João, filho da vizinha rechonchuda, está em um banco comendo o sanduíche que a mãe fez.
O sino da igreja toca. 7:00 horas. Lambo os lábios.
Amplio a visão, a primeira coisa que noto é o sorriso
preguiçoso. Meu coração palpita.
Vejo a garota ao seu lado, ela usa o meu vestido de verão.
O sorriso dela é extravagante, como fizesse questão de dizer ao mundo que é
feliz.
Minha
garotinha se desprender dos dois e subir no escorregador. É como olhar no
espelho. Meu bebê sussurro entre as
lágrimas.
Collin olha diretamente para mim. Ele sabe que estou aqui. Sempre soube.
Com as mãos tremulas abaixo o binóculo.
Desço
o morro e no fim dele escuto uma voz:
— Ali...
Fico parada, de costas para ele.
— Collin. — Digo, com a voz tremula.
Um brilho toma conta dos seus olhos, dor. Me perdoa, sussurra. Ele tirou minha
garotinha de mim.
Corro. Ele tem uma parte de mim, e eu o que eu tenho?
Meu
braço é puxado. Ele me beija, e sinceramente, não quero lutar contra isso.
Imaginei isso tantas vezes. Droga, eu o perdoo. Então... ele
se afasta, me perdoa, repete.
Compreendo.
Não somos amantes se reconciliando, apenas duas pessoas
dizendo adeus. Sem parque aos domingos.
Meu coração desmorona, de novo.
Ele me olha
assustado. É tarde demais.
A porta é aberta. O cabelo preso em um coque elegante, da mulher; e o terno alinhado, do homem. Dois sentimentos intercalam em seus olhos: Surpresa e nojo.
Os pais dele nunca me aceitaria e eu sabia disso, mas nunca imaginei que roubaria minha filha no hospital ou daria a ela outra mãe.
Observo meu nome sendo formulada nas entranhas
da mente dela e mandada ao mundo sem nenhum pudor: Alicia.
Meu coração palpita,
É o fim.

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